Você pode discordar sempre que
quiser. Todavia, o que quis ressaltar é que, embora a vida dos animais em geral
esteja longe de ser um mar de rosas, há algo mais linear e, talvez, mais “conformado”
no modo como vivem. Como dizem os biólogos, o sistema natural é um sistema que
busca constantemente o equilíbrio.
Mas, deixando vacas e touros para
lá, talvez nosso modo de vida seja mesmo diferente em virtude das inúmeras variáveis
que, como você observou bem, fazem parte dos processos de nosso córtex. Uma
delas é a vontade (prometo que falo dela em outra carta). A outra é a que você
já mencionou: a moral.
É curioso quando fazemos uma
genealogia da moral.
Egípcios e Sumérios, por exemplo
(e imagino que todo o povo da Antiguidade, até os romanos), não distinguiam a
moral do direito (e da religião). Era uma coisa só! O direito, na verdade,
cuidava da jurisdição dessa moral. A religião, por outro lado, criava formas de
coerção em nome dessa moral. Com o passar do tempo, e sobretudo atualmente,
ficamos mais habituados a estabelecer boas diferenças. As leis do direito
(principalmente no Brasil) são aquelas que podem ser “emendadas”, são rasuráveis,
coercíveis. Ou seja, no direito, é perfeitamente possível que um assassinato
seja absolvido e o roubo de umas galinhas seja condenado. No âmbito da moral,
no entanto, isso é impensável, já que a moral seria um campo mais amplo que
diria respeito à consciência do bem agir e do bem querer.
Claro que – não sem razão – esse é
um daqueles temas controversos. Nosso amigo que gostava de empiria, David Hume,
ao observar – na prática – a moral, chegou a afirmar que ela tinha menos a ver
com a razão que com as paixões. Segundo ele, o impulso básico para a moral era
justamente a tentativa de privação da dor e a busca do prazer (algo próximo do
que defenderam Rodney Stark e William Bainbridge no livro “Uma Teoria da Religião”).
Kant, diferentemente, achava que não era bem assim. Para ele, só era possível
uma moral a partir de uma base racional. Ou seja, a partir da razão.
Não sei. Tenho dúvidas. Essas
coisas me deixam confuso!
Um ponto, porém, me parece claro.
Você disse bem em sua carta a respeito dos limites e das referências que
tentamos nos impor desde que o mundo é mundo. Será por isso que criamos tantas
definições mirabolantes e tantas explicações variadas? Tantas religiões, artes,
códigos, ciências, expectativas, padrões, rótulos?
Mais que isso: uma vez
reconhecido o fato de que somos falhos e de que estamos quase sempre inclinados
aos caprichos da alma, como seria possível uma moral objetiva que superasse
esse fosso conceitual que percebemos entre teoria e prática?
Um beijo,
G.
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