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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ah, a moral..

Então, minha querida...


Você pode discordar sempre que quiser. Todavia, o que quis ressaltar é que, embora a vida dos animais em geral esteja longe de ser um mar de rosas, há algo mais linear e, talvez, mais “conformado” no modo como vivem. Como dizem os biólogos, o sistema natural é um sistema que busca constantemente o equilíbrio.

Mas, deixando vacas e touros para lá, talvez nosso modo de vida seja mesmo diferente em virtude das inúmeras variáveis que, como você observou bem, fazem parte dos processos de nosso córtex. Uma delas é a vontade (prometo que falo dela em outra carta). A outra é a que você já mencionou: a moral.

É curioso quando fazemos uma genealogia da moral.

Egípcios e Sumérios, por exemplo (e imagino que todo o povo da Antiguidade, até os romanos), não distinguiam a moral do direito (e da religião). Era uma coisa só! O direito, na verdade, cuidava da jurisdição dessa moral. A religião, por outro lado, criava formas de coerção em nome dessa moral. Com o passar do tempo, e sobretudo atualmente, ficamos mais habituados a estabelecer boas diferenças. As leis do direito (principalmente no Brasil) são aquelas que podem ser “emendadas”, são rasuráveis, coercíveis. Ou seja, no direito, é perfeitamente possível que um assassinato seja absolvido e o roubo de umas galinhas seja condenado. No âmbito da moral, no entanto, isso é impensável, já que a moral seria um campo mais amplo que diria respeito à consciência do bem agir e do bem querer.

Claro que – não sem razão – esse é um daqueles temas controversos. Nosso amigo que gostava de empiria, David Hume, ao observar – na prática – a moral, chegou a afirmar que ela tinha menos a ver com a razão que com as paixões. Segundo ele, o impulso básico para a moral era justamente a tentativa de privação da dor e a busca do prazer (algo próximo do que defenderam Rodney Stark e William Bainbridge no livro “Uma Teoria da Religião”). Kant, diferentemente, achava que não era bem assim. Para ele, só era possível uma moral a partir de uma base racional. Ou seja, a partir da razão.

Não sei. Tenho dúvidas. Essas coisas me deixam confuso!

Um ponto, porém, me parece claro. Você disse bem em sua carta a respeito dos limites e das referências que tentamos nos impor desde que o mundo é mundo. Será por isso que criamos tantas definições mirabolantes e tantas explicações variadas? Tantas religiões, artes, códigos, ciências, expectativas, padrões, rótulos?

Mais que isso: uma vez reconhecido o fato de que somos falhos e de que estamos quase sempre inclinados aos caprichos da alma, como seria possível uma moral objetiva que superasse esse fosso conceitual que percebemos entre teoria e prática?

Um beijo,
G.  

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