Minha querida amiga,
Andei ocupado demais comigo mesmo esses dias e, curiosamente, achei isso terrível. Na verdade, essa coisa toda tem a ver com o que você trouxe à tona. Alguns têm uma facilidade incrível para viver neste mundo. Outros, grupo em que me incluo, têm alguns problemas. Algumas dificuldades estruturais.
Andei ocupado demais comigo mesmo esses dias e, curiosamente, achei isso terrível. Na verdade, essa coisa toda tem a ver com o que você trouxe à tona. Alguns têm uma facilidade incrível para viver neste mundo. Outros, grupo em que me incluo, têm alguns problemas. Algumas dificuldades estruturais.
Curioso. Isso me lembra uma pichação
que vi há muitos anos no muro do cemitério do Araçá. Passando por ali de carro,
e em meio a um trânsito caótico, ambulâncias gritando, mendigos deitados nas
calçadas e gente cansada voltando do trabalho, o comentário numa das paredes me
chamou a atenção. Dizia apenas isso: olhe
ao redor!! Estranho, não?! E era poético. Era crítico. Deu-me a certeza, no
momento em que li aquilo, que a pessoa que havia pichado tinha uma alma como a
minha. Inconformada por natureza, com dificuldades peculiares para se adaptar a
um mundo estranho (com aparência de normal), enfim, uma alma reflexiva.
Para esse tipo de alma, as
conveniências sociais podem até, de vez em quando, ser toleradas e obedecidas.
Mas não se engane: de tempos em tempos, há um grito que sai lá de dentro. Um
surto. Uma irracionalidade imediata. E é daí que saem as boas poesias, as
grandes artes, as músicas inesquecíveis, os pensamentos irrefreáveis.
No fundo, creio que o mundo
precisa dos dois tipos de pessoas, sem dúvida alguma. Mas isso não se escolhe (pertencer
a este ou àquele grupo). Só se aceita, com todas as dificuldades de comunicação
que essa heterogeneidade nos traz às vezes.
Ai, querida Clarissa, há tanta
coisa entre o céu e a terra que, realmente, nos sentimos perdidos na maior
parte do tempo. Não sei se o James tem razão. E nem sei se eu mesmo tenho
alguma. Escrevo o que sinto, o que observo, o que me chama a atenção e,
inquestionavelmente, o que me muda – de dentro para fora e de fora para dentro.
Não sei que rumos nossa conversa
tomará daqui para frente. Mas vou aguardar. Tem sido muito proveitoso dialogar
com uma alma inquieta e excitante como a sua.
Beijos,
G.
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