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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sair da gaiola, ir além e o que mais?

Prezada Clarissa,

Primeiro um comentário: não se desculpe pela falta de referências! Os nomes não significam nem mais nem menos conhecimento. E diria até que, quando você escreve, o mais importante é o seu nome, Clarissa, sua identidade, aparecendo tão sutilmente por trás de cada linha. Seu texto é belo, porque é a sua cara. Para que outros nomes e outras caras, se – em sua maioria – acadêmicos são feios e barrigudos? Estragaria...

Brincadeiras à parte, é isso o que noto. Seu argumento em prol da vingança é muitíssimo particular, me parece. Quando o leio, fico tentado a discordar. Mas percebo que você tem seus pontos e tem seus meios, de modo que – sim – você deve ter razão (ou alguma razão) no que fala (isso, aliás, é totalmente insignificante, já que essas cartas não são uma competição de argumentos, para ver quem vence e quem perde). O que parece curioso, porém, é sua definição de vingança sadia. E faço-lhe uma pergunta: como encontrar a dose correta, para atos distintos, se as pessoas são diferentes e, em geral, o que dói em um não dói no outro?

Eu me explico. Traição, por exemplo. Num dia qualquer, sol, cerveja, papo-vai, papo-vem, uma oportunidade aparece e o homem não resiste e trai sua parceira. Bem, a parceira descobre, seja pela cara de cachorro órfão dele ao chegar em casa ou por terceiros, e –claro – decide se vingar. Vai e faz o mesmo (engraçado, acabo de pensar que o que move a maioria dos homens à traição é o tesão, enquanto que – no caso da mulher – é o desejo de vingança, de fazer igual. Freud está por aí?).

Bem, voltando: não tenho dúvidas de que a traição no homem dói tanto quanto na mulher (embora com sentimentos diferentes, naturalmente). Mas suponhamos que se trata de um “cabrão”. Explico minha definição: “cabrão” é o homem que não tem nenhum problema com ser traído; aliás, às vezes ele até gosta. Nesse caso, pagar a traição com a traição não resolve. Pois são pesos iguais, mas medidas diferentes!

O que quero dizer é: como estabelecer isso? Como enxergar onde estão esses limites, sem ficar aquém do ato feito e sem excedê-lo em suas dimensões psicológicas?

Complicado, não?!

Por isso, falar em educação, sobretudo em educação emocional, é tão difícil. Está na moda, é verdade. Qualquer livraria tem algum título na lista dos mais vendidos com coisas do tipo “inteligência emocional” em letras graúdas. Mas isso não quer dizer nada, pois continuamos cegos para as questões interiores, tratando-as como objetos extracorpóreos que podem ser medidos, racionalizados, teorizados, etc. Não podem!

A meu ver, Clarissa, minha amiga, para chegarmos – de fato – a uma educação que supere essas antinomias, e inclua – por exemplo – a vingança na pauta do dia (não como fazem alguns psicólogos, mecanicamente), é preciso transcender nosso velho método cartesiano. É preciso ir além, dando vazão ao ser e aceitando os perigos de, momentaneamente, perder o controle e sair da gaiola. Mas sinceramente: não sei se isso pode ser ensinado!

Então entramos no limbo, entende?! O que fazer?

Bom, paro por aqui... por enquanto.

Beijo!
G.

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