Querido Gustavo,
Como encontrar a dose correta, se o que dói em um não é o mesmo que dói no outro? Movida por essa sua questão é que me lanço a uma resposta simples a ponto de ser quase óbvia: são as emoções que nos dizem sobre o outro, sobre o que dói, o que aniquila, o que estimula, o que provoca. Desde crianças, testamos as reações emocionais das outras pessoas a partir de códigos sutis de comportamento e linguagem. Tudo para chegar a um ponto importante: o conhecimento. Sentir é uma forma de conhecimento de si e do mundo, especialmente entre pessoas com uma conexão emocional profunda, como é o caso de parceiros amorosos.
A moeda de troca quase nunca é pagar a traição com uma traição. Existem sutilezas nessa troca, para que ela funcione. Às vezes, dói muito mais no outro (no "cabrão", talvez, mas confesso que me surpreendi com sua definição, pois achava que na definição de "cabrão" caberia muito mais um cabra machão que jamais admitiria ser traído), dói muito mais uma provocação intencional de olhares do que uma realização de fato. Ou dói ser olhada por uma pessoa específica (talvez o amigo de infância do cabrão) e é esse olhar que "ela" deve perseguir.
Perseguir - veja bem - não realizar. Quando o vingador se iguala em termos de intensidade da traição, esta já recai para um nível não saudável. A vingança precisa ser um grau abaixo da provocação inicial, mas um grau que também provoque dor. E ao contrário da intensidade, a frequência precisa ser da mesma ordem. Por exemplo, a mulher traída pode sentir que o que dói para o cara é o prestígio social e nesse caso ela denuncia o cabra publicamente por maracutaias. Funciona? Depende do que se quer. Se ela só queria acertar as contas com sua própria alma, ok, pode funcionar. Mas se ela ainda queria ter algo com o amado... Não vai ser possível (ou quase nunca). Uma pessoa ferida só pode manter os canais de troca com a que a feriu se uma reconstituição emocional acontece. E existe um nível de reconstituição que é individual e outro que é do relacionamento. Não adianta o vingador (vamos falar um pouco do cara traído, só a mulher traída não vale, rs) queimar o rosto da traidora. Ele pode até se sentir reconstituído em termos de brio, entretanto, a relação foi ferida num nível ainda mais grave que o da traição, e pelo fato da frequência da vingança não ter sido a mesma do ato vingado (traição afetiva X violência física), a conta nunca vai fechar, pois novas feridas foram abertas. O relacionamento não foi reconstituído, apenas - talvez - a emoção do sujeito.
Acredito que a vingança é uma forma de fazer o outro reconhecer "minha" dor. É tornar legítimo um sentimento que só é enxergado por mim. É, além de um mecanismo de defesa, também um mecanismo de identificação, no sentido de reconhecimento.
E quando você se refere a olhar para dentro, sim, Gustavo, exatamente isso! Eis a chave de compreensão das doses e limites emocionais de si e do outro. Ao olhar para dentro, identificamos nossos reais desejos e medos e desenvolvemos intuição, sensibilidade, faro emocional para olhar para as sutilezas da alma do outro. E é assim que saberemos onde dói.
Sobre a educação emocional (talvez eu esteja puxando sardinha para meu lado), acredito que ela se dá terapeuticamente, mas também por outras vias que não as terapias tradicionais, como viagens, erros e acertos amorosos, estudos... Todas as formas de conhecimento do mundo são formas de conhecimento sobre nós e contribuem para enriquecer nosso saber emocional.
Vou terminando, meu filho está quase por acordar aqui ao lado (ainda são 3h30 da manhã). De minha parte, essa pauta da vingança foi esmiuçada, por ora. Veja se também lhe basta de vingança, rs.
Beijo da Clarissa.
Como encontrar a dose correta, se o que dói em um não é o mesmo que dói no outro? Movida por essa sua questão é que me lanço a uma resposta simples a ponto de ser quase óbvia: são as emoções que nos dizem sobre o outro, sobre o que dói, o que aniquila, o que estimula, o que provoca. Desde crianças, testamos as reações emocionais das outras pessoas a partir de códigos sutis de comportamento e linguagem. Tudo para chegar a um ponto importante: o conhecimento. Sentir é uma forma de conhecimento de si e do mundo, especialmente entre pessoas com uma conexão emocional profunda, como é o caso de parceiros amorosos.
A moeda de troca quase nunca é pagar a traição com uma traição. Existem sutilezas nessa troca, para que ela funcione. Às vezes, dói muito mais no outro (no "cabrão", talvez, mas confesso que me surpreendi com sua definição, pois achava que na definição de "cabrão" caberia muito mais um cabra machão que jamais admitiria ser traído), dói muito mais uma provocação intencional de olhares do que uma realização de fato. Ou dói ser olhada por uma pessoa específica (talvez o amigo de infância do cabrão) e é esse olhar que "ela" deve perseguir.
Perseguir - veja bem - não realizar. Quando o vingador se iguala em termos de intensidade da traição, esta já recai para um nível não saudável. A vingança precisa ser um grau abaixo da provocação inicial, mas um grau que também provoque dor. E ao contrário da intensidade, a frequência precisa ser da mesma ordem. Por exemplo, a mulher traída pode sentir que o que dói para o cara é o prestígio social e nesse caso ela denuncia o cabra publicamente por maracutaias. Funciona? Depende do que se quer. Se ela só queria acertar as contas com sua própria alma, ok, pode funcionar. Mas se ela ainda queria ter algo com o amado... Não vai ser possível (ou quase nunca). Uma pessoa ferida só pode manter os canais de troca com a que a feriu se uma reconstituição emocional acontece. E existe um nível de reconstituição que é individual e outro que é do relacionamento. Não adianta o vingador (vamos falar um pouco do cara traído, só a mulher traída não vale, rs) queimar o rosto da traidora. Ele pode até se sentir reconstituído em termos de brio, entretanto, a relação foi ferida num nível ainda mais grave que o da traição, e pelo fato da frequência da vingança não ter sido a mesma do ato vingado (traição afetiva X violência física), a conta nunca vai fechar, pois novas feridas foram abertas. O relacionamento não foi reconstituído, apenas - talvez - a emoção do sujeito.
Acredito que a vingança é uma forma de fazer o outro reconhecer "minha" dor. É tornar legítimo um sentimento que só é enxergado por mim. É, além de um mecanismo de defesa, também um mecanismo de identificação, no sentido de reconhecimento.
E quando você se refere a olhar para dentro, sim, Gustavo, exatamente isso! Eis a chave de compreensão das doses e limites emocionais de si e do outro. Ao olhar para dentro, identificamos nossos reais desejos e medos e desenvolvemos intuição, sensibilidade, faro emocional para olhar para as sutilezas da alma do outro. E é assim que saberemos onde dói.
Sobre a educação emocional (talvez eu esteja puxando sardinha para meu lado), acredito que ela se dá terapeuticamente, mas também por outras vias que não as terapias tradicionais, como viagens, erros e acertos amorosos, estudos... Todas as formas de conhecimento do mundo são formas de conhecimento sobre nós e contribuem para enriquecer nosso saber emocional.
Vou terminando, meu filho está quase por acordar aqui ao lado (ainda são 3h30 da manhã). De minha parte, essa pauta da vingança foi esmiuçada, por ora. Veja se também lhe basta de vingança, rs.
Beijo da Clarissa.
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