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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

E se Deus não existe...

Querida Clarissa,

Não sei, de fato, por que o processo de escolha é tão desgastante, complexo e paradoxal em nossas vidas. Aliás, estou escrevendo um pequeno livro de registros pessoais em que o pano de fundo é exatamente este: a liberdade de escolha.

A meu ver, vivemos o dilema registrado na fala memorável de um dos personagens de Dostoievski: se Deus não existe, então tudo é permitido. Essa paráfrase do livro “Os Irmãos Karamazov” tem sido frequentemente mal interpretada durante o século XX, sobretudo por religiosos que buscam em Dostoievski (bem em quem) uma suposta defesa da moralidade a partir de princípios religiosos. Na verdade, o escritor russo não queria enfatizar a possibilidade de amoralidade se extinguirmos o conceito de deus; mas, antes, sublinhar – como fica claro na leitura do trecho todo – que, se abdicarmos da noção de deus, então recai sobre nossos ombros (e somente sobre eles) toda e qualquer responsabilidade diante das escolhas e dos atos que fazemos. E isso não só parece aterrador do ponto de vista prático como, também, nos deixa com um controle sombrio da vida que, provavelmente, não fazemos questão de saber que temos.

Por isso, sua fala é apenas mais um registro desse paradoxo: lutamos muito para ter o controle das coisas, mas, quando finalmente ele está em nossas mãos, fazemos questão de passar a bola para outro (ou lamentamos que tenhamos tantas alternativas). E veja: é uma preocupação legítima, já que Sartre andou por aí quando afirmou que “o homem está condenado a ser livre”. E Nietzsche ficou louco ao propor que a ideia de um deus que justifique os acontecimentos à nossa volta é totalmente desnecessária (naturalmente, dizer que sua loucura pode ser explicada a partir dessa base é mera suposição minha).

O fato é que dá medo mesmo. Tomar decisões. E não sem razão. A vida é um quebra-cabeça complicado demais para seres tão (i)limitados.

Humano, demasiado humano...


Beijos,
G.  

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