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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sim, mas fica um gosto amargo!

Amiga Clarissa,

Confesso que refleti bastante nessa longa conversa.

Minha definição de “cabrão” é aquela do nordeste brasileiro; corno manso mesmo; chifrudo. Curiosamente, fui até o Aulete e me surpreendi ao ver que esse termo consta (e com mesmo significado). Não imaginava! Mas, enfim. Esse é um tipo de homem muito raro e bem diferente do “machão”, do “garanhão” e dos coronéis “Jesuínos” que temos por aí.

Bem, resta dizer que estamos de acordo em quase tudo. Exceto por um gosto amargo que ainda fica na minha boca ao ver toda essa abordagem funcionando “quase” como um sistema “pai-e-filho”. No sentido de ações e punições, ações e reações, etc. Isso tudo é ainda muito newtowniano e cartesiano para minha cabeça. Não consigo louvar um projeto evolutivo (divino, menos ainda) que tenha estabelecido a dor como principal etapa de conhecimento. Posso, claro, reconhecer que isso é assim e funciona assim, mas não achar que se trata de um projeto elegante.

Naturalmente, meu desacordo se dá porque visualizo uma alternativa. Chama-se autocrítica, autoconhecimento, autorreflexão...  e ela pode, sim, ocorrer sem a intervenção das punições e, portanto, das vinganças de outros.

Passei por várias dessas situações há uns 10 anos, quando ainda lecionava em colégios. O diretor mandava punir o aluno por causa de um comportamento ou uma ação particular. E aí, conversando com o aluno depois, percebia-se que a autorreflexão já havia acontecido, no sentido de um arrependimento legítimo e educativo, que – a meu ver – dispensava totalmente a necessidade de outras intervenções.

Mas a punição fazia parte do estatuto da escola. E outra: não executá-la, abriria um precedente (em ambientes públicos, sobretudo em escolas, sempre tem esse papo dos precedentes – não sei por que não se perguntam sobre os “poscedentes”, já que o que realmente importa é o que será feito daquele momento em diante).

E aí se punia o aluno, desnecessariamente, apenas para seguir a “letra” e, claro, saciar um pouco o fetiche por dor da grande maioria dos espectadores.

Não sei, Clarissa! Mas acho que somos um pouco sanguinários por natureza. Gostamos, inconscientemente, de assistir ao sofrimento alheio (verdade mesmo! Repare!). E isso, como mencionei acima, é tudo menos elegante para mim.

Enfim. Quem sou eu? Apenas ouso...

Para terminar no direito, fecho com essa citação: quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis.

Que tal substituirmos nessa citação “leis” por “punições e vinganças”?

Um beijo,
G.   

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