Amiga Clarissa,
Confesso que refleti bastante
nessa longa conversa.
Minha definição de “cabrão” é
aquela do nordeste brasileiro; corno manso mesmo; chifrudo. Curiosamente, fui
até o Aulete e me surpreendi ao ver que esse termo consta (e com mesmo
significado). Não imaginava! Mas, enfim. Esse é um tipo de homem muito raro e
bem diferente do “machão”, do “garanhão” e dos coronéis “Jesuínos” que temos
por aí.
Bem, resta dizer que estamos de
acordo em quase tudo. Exceto por um gosto amargo que ainda fica na minha boca
ao ver toda essa abordagem funcionando “quase” como um sistema “pai-e-filho”.
No sentido de ações e punições, ações e reações, etc. Isso tudo é ainda muito
newtowniano e cartesiano para minha cabeça. Não consigo louvar um projeto
evolutivo (divino, menos ainda) que tenha estabelecido a dor como principal
etapa de conhecimento. Posso, claro, reconhecer que isso é assim e funciona
assim, mas não achar que se trata de um projeto elegante.
Naturalmente, meu desacordo se dá
porque visualizo uma alternativa. Chama-se autocrítica, autoconhecimento, autorreflexão...
e ela pode, sim, ocorrer sem a intervenção
das punições e, portanto, das vinganças de outros.
Passei por várias dessas situações
há uns 10 anos, quando ainda lecionava em colégios. O diretor mandava punir o
aluno por causa de um comportamento ou uma ação particular. E aí, conversando
com o aluno depois, percebia-se que a autorreflexão já havia acontecido, no
sentido de um arrependimento legítimo e educativo, que – a meu ver – dispensava
totalmente a necessidade de outras intervenções.
Mas a punição fazia parte do
estatuto da escola. E outra: não executá-la, abriria um precedente (em
ambientes públicos, sobretudo em escolas, sempre tem esse papo dos precedentes –
não sei por que não se perguntam sobre os “poscedentes”, já que o que realmente
importa é o que será feito daquele momento em diante).
E aí se punia o aluno,
desnecessariamente, apenas para seguir a “letra” e, claro, saciar um pouco o
fetiche por dor da grande maioria dos espectadores.
Não sei, Clarissa! Mas acho que
somos um pouco sanguinários por
natureza. Gostamos, inconscientemente, de assistir ao sofrimento alheio
(verdade mesmo! Repare!). E isso, como mencionei acima, é tudo menos elegante
para mim.
Enfim. Quem sou eu? Apenas
ouso...
Para terminar no direito, fecho
com essa citação: quando os homens são
puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis.
Que tal substituirmos nessa citação
“leis” por “punições e vinganças”?
Um beijo,
G.
Nenhum comentário:
Postar um comentário