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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Antídoto e veneno

Obrigada por sua carta, aprendi bastante. Peço que você sempre enriqueça nossas trocas com esses "autores pensantes", pois eu sou mais dada às reflexões livres. Mas como fazem falta essas referências! Obrigada novamente. Já vou logo ler sobre Stark.

Acho que a moral pode até nascer de um instinto de evitação da dor, mas na prática também gera dor. E esse é um dos problemas humanos relativos ao equilíbrio e desequilíbrio: dificilmente nós conseguimos dar conta de nossas dores emocionais, encerrando processos de mágoas, ressentimentos, raivas e tristezas sem um revide. Quando relegamos ao Estado ou às normas sociais a chance de reparar nossos danos privados através de leis e cumprimento destas, nós estamos exigindo uma vingança com cara de justiça.

Agora chego ao ponto que gostaria de ter abordado logo no começo de nossa correspondência: a vingança. Ela pode até parecer um recurso grosseiro, animalesco e pouco elaborado, que provoca repúdio aos humanistas, mas na verdade é uma parceira do equilíbrio na medida em que é um santo remédio para quase todas as dores. É claro que não adianta provocar exatamente o mesmo nível de estrago que o algoz gerou, mas é preciso alguma tentativa de reequilibrio do jogo, através da liberação mágica gerada pela possibilidade de inversão dos papéis.

O problema quase sempre é saber qual a exata dose do antídoto que cura sem matar, já que as substâncias do remédio e do veneno são as mesmas. As guerras eternas no Oriente Médio, por exemplo, são um exemplo obscuro de processos em que a vingança só gera mais sede de vingança, pois erros históricos nas doses já não permitem mais tréguas.

Caro amigo Gustavo, em relação à moral, ela se vinga por nós, chamando de vagabunda aquela que gostaríamos de intimamente nomear de algum nome do inferno, algum nome que contenha a força da raiva e da dor de uma traição. A moral traz de bandeja esses nomes raivosos, justificando nossa extrema falta de habilidade em lidar com a dor.

Despeço-me com um gosto um pouco amargo, retomando meu lugar nessa cadeia sem fim de emoções pesadas. Espero saber usar com equilíbrio minhas vinganças. Pois elas são, em algum grau, indispensáveis, em minha opinião.

Cla

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