Gustavo, meu amigo,
Ao contrário do que você expôs logo no ínicio de sua carta, a vingança nunca chega de repente; ela é sorrateira, silenciosa, gosta das laterais, e está sempre à espreita. Não é à toa que quando eu propus no primeiro texto do blog o tema do equilíbrio, eu já tinha a vingança em algum cantinho de minha mente bem intencionada.
Você me pede uma análise psicológica da vingança e lá vou eu, solitariamente, sem recorrer a nenhum grande nome nesse parágrafo, para dizer o que vem de minha alma. A vingança é um recurso egóico de defesa que quando utilizado em um nível saudável (dose de antídoto, não de veneno) pode proteger o ego contra a posição depressiva, que é por demais violenta e destrutiva ao ser. A tristeza profunda experimentada em uma depressão devasta a psique, desarticula a identidade e desestrutura o ser. Por isso, a vingança é um mecanismo de defesa a serviço da evitação desse estado, já que dentre os estágios da dor temos a raiva e a tristeza, e ambas podem se transformar em mágoa ou ressentimento - estes últimos, poderosos sentimentos destrutivos em busca de justiça emocional, o tal do reequilibrio. A vingança é um agente psicológico do reequilibrio. O problema é, mais uma vez, a dose. Uma vingança que realiza uma carga destrutiva tão ou mais violenta que a carga da qual se vinga, é uma vingança patológica. A título de exemplo: matar alguém que lhe traiu é patológico, não traz reequilíbrio, e sim mais desequilíbrio, mais raiva, mais dor, mais ressentimento. Não gera aprendizado para a outra parte, não faz igualar as situações através do reconhecimento da potência destrutiva inicial. Não promove compaixão, não promove integração. Esse tipo de vingança vai para os jornais, para as clínicas psiquiátricas, para os funerais. Veja, portanto, G., que há uma vingança saudável - a serviço do reequilibrio do organismo, do ego, das relações interpessoais - e há uma vingança patológica - a serviço de mais destruição e desintegração.
Como diria Damásio (optei por chamar alguém para me ajudar nessas loucas empreitadas), as emoções antecedem a razão nas tomadas de decisão. Somos seres passionais, sim. Instintivos, reativos. Portanto, não são os códigos morais que nos impedem de cometer uma ação cruel (pelo menos nem sempre são eles). Para mim, são nossas próprias emoções que agem evitando a catástrofe e não somente provocando-a. Temos emoções nobres e dentre elas, a intuição que vislumbra o que será melhor em termos de proteção. A mente joga xadrez, mas diante do aperto do cronômetro, a melhor jogada pode surgir como um desenho aparentemente ilógico, quase como um ingênuo "liga-pontos".
Não sei se me estendi em minha análise. Passo a bola para você, sugerindo, humildemente, que insira a Educação nesse debate. Já que as emoções mandam no jogo, será que poderíamos ser melhor educados emocionalmente para sabermos nos vingar na medida certa ou escolher com vistas na construção?
Beijos da Clarissa.
Ao contrário do que você expôs logo no ínicio de sua carta, a vingança nunca chega de repente; ela é sorrateira, silenciosa, gosta das laterais, e está sempre à espreita. Não é à toa que quando eu propus no primeiro texto do blog o tema do equilíbrio, eu já tinha a vingança em algum cantinho de minha mente bem intencionada.
Você me pede uma análise psicológica da vingança e lá vou eu, solitariamente, sem recorrer a nenhum grande nome nesse parágrafo, para dizer o que vem de minha alma. A vingança é um recurso egóico de defesa que quando utilizado em um nível saudável (dose de antídoto, não de veneno) pode proteger o ego contra a posição depressiva, que é por demais violenta e destrutiva ao ser. A tristeza profunda experimentada em uma depressão devasta a psique, desarticula a identidade e desestrutura o ser. Por isso, a vingança é um mecanismo de defesa a serviço da evitação desse estado, já que dentre os estágios da dor temos a raiva e a tristeza, e ambas podem se transformar em mágoa ou ressentimento - estes últimos, poderosos sentimentos destrutivos em busca de justiça emocional, o tal do reequilibrio. A vingança é um agente psicológico do reequilibrio. O problema é, mais uma vez, a dose. Uma vingança que realiza uma carga destrutiva tão ou mais violenta que a carga da qual se vinga, é uma vingança patológica. A título de exemplo: matar alguém que lhe traiu é patológico, não traz reequilíbrio, e sim mais desequilíbrio, mais raiva, mais dor, mais ressentimento. Não gera aprendizado para a outra parte, não faz igualar as situações através do reconhecimento da potência destrutiva inicial. Não promove compaixão, não promove integração. Esse tipo de vingança vai para os jornais, para as clínicas psiquiátricas, para os funerais. Veja, portanto, G., que há uma vingança saudável - a serviço do reequilibrio do organismo, do ego, das relações interpessoais - e há uma vingança patológica - a serviço de mais destruição e desintegração.
Como diria Damásio (optei por chamar alguém para me ajudar nessas loucas empreitadas), as emoções antecedem a razão nas tomadas de decisão. Somos seres passionais, sim. Instintivos, reativos. Portanto, não são os códigos morais que nos impedem de cometer uma ação cruel (pelo menos nem sempre são eles). Para mim, são nossas próprias emoções que agem evitando a catástrofe e não somente provocando-a. Temos emoções nobres e dentre elas, a intuição que vislumbra o que será melhor em termos de proteção. A mente joga xadrez, mas diante do aperto do cronômetro, a melhor jogada pode surgir como um desenho aparentemente ilógico, quase como um ingênuo "liga-pontos".
Não sei se me estendi em minha análise. Passo a bola para você, sugerindo, humildemente, que insira a Educação nesse debate. Já que as emoções mandam no jogo, será que poderíamos ser melhor educados emocionalmente para sabermos nos vingar na medida certa ou escolher com vistas na construção?
Beijos da Clarissa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário