Meu amigo,
Estive viajando e retornei apenas ontem à noite. Lendo sua carta, lembrei-me que em alguma ocasião você chegou a dividir as pessoas em dois tipos, sendo um deles mais adaptado às regras da sociedade e outros menos encaixados nesses modelos todos. Os segundos, naturalmente, apresentariam conflitos de ordem provavelmente mais angustiante que os primeiros.
Sempre penso em meu marido nessas ocasiões. Ele não faz esforço para viver de acordo com o mundo. Ele e o mundo simplesmente se entendem; vêm da mesma origem, ambos compartilham os mesmos valores. Não é superficial (pelo contrário, aliás, é bastante inteligente, perspicaz, afetivamente presente), tampouco é fake, um qualquer que representa bem seu papel para não ter punições posteriores, ou simplesmente para obter o que quer. Não. Ele vive, respira e acredita na história dele. É simplesmente feliz.
Soa até estranho para nós, inconformados (desastrosamente, já estou incluindo você, Gustavo, nesse grupo, sem ao menos consultá-lo. Se não for o caso, desculpe minha pressa). Os que não se conformam são os que não se adequam à forma e passam a vida procurando seu lugar. Talvez seu único lugar possível seja dentro de si mesmos, de sua inabilidade originalíssima, de sua alma "genial" incompreendida e inútil. De que vale falar esperanto em terra em que só se entende inglês?
William James também dividiu os seres humanos em dois tipos: "os nascidos uma vez" e os "nascidos duas vezes". Você se lembra disso? James referia-se a essa segunda categoria como almas enfermas, naturalmente doentes. Seria preciso um novo nascimento para a possibilidade de uma visão feliz, integradora...
Não sei se errei em algum sentido conceitual (faz tempo que li William James), mas minha memória me trouxe até essas reflexões quando falamos de escolha. Não somos livres para escolher, somos condicionados pelas contingências de nossa personalidade, pelas aflições de nossa alma, de nossa história, pelas variáveis que se apresentam. Ainda assim, temos escolha. Em nosso limitado leque de possibilidades. E no final, é preciso ainda agradecer por esse limitado leque, evitando que ele se torne ainda mais limitado. Viver...
Um beijo, querido. Até a próxima estação...
Estive viajando e retornei apenas ontem à noite. Lendo sua carta, lembrei-me que em alguma ocasião você chegou a dividir as pessoas em dois tipos, sendo um deles mais adaptado às regras da sociedade e outros menos encaixados nesses modelos todos. Os segundos, naturalmente, apresentariam conflitos de ordem provavelmente mais angustiante que os primeiros.
Sempre penso em meu marido nessas ocasiões. Ele não faz esforço para viver de acordo com o mundo. Ele e o mundo simplesmente se entendem; vêm da mesma origem, ambos compartilham os mesmos valores. Não é superficial (pelo contrário, aliás, é bastante inteligente, perspicaz, afetivamente presente), tampouco é fake, um qualquer que representa bem seu papel para não ter punições posteriores, ou simplesmente para obter o que quer. Não. Ele vive, respira e acredita na história dele. É simplesmente feliz.
Soa até estranho para nós, inconformados (desastrosamente, já estou incluindo você, Gustavo, nesse grupo, sem ao menos consultá-lo. Se não for o caso, desculpe minha pressa). Os que não se conformam são os que não se adequam à forma e passam a vida procurando seu lugar. Talvez seu único lugar possível seja dentro de si mesmos, de sua inabilidade originalíssima, de sua alma "genial" incompreendida e inútil. De que vale falar esperanto em terra em que só se entende inglês?
William James também dividiu os seres humanos em dois tipos: "os nascidos uma vez" e os "nascidos duas vezes". Você se lembra disso? James referia-se a essa segunda categoria como almas enfermas, naturalmente doentes. Seria preciso um novo nascimento para a possibilidade de uma visão feliz, integradora...
Não sei se errei em algum sentido conceitual (faz tempo que li William James), mas minha memória me trouxe até essas reflexões quando falamos de escolha. Não somos livres para escolher, somos condicionados pelas contingências de nossa personalidade, pelas aflições de nossa alma, de nossa história, pelas variáveis que se apresentam. Ainda assim, temos escolha. Em nosso limitado leque de possibilidades. E no final, é preciso ainda agradecer por esse limitado leque, evitando que ele se torne ainda mais limitado. Viver...
Um beijo, querido. Até a próxima estação...
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