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sábado, 15 de dezembro de 2012

Dentro e fora da Matrix

Clarissa querida...

Bem, você tocou num ponto importante. E acho que o fez de modo provocativo, quase me dando a isca para uma contradição (estou aceitando os riscos). Na verdade, não posso dizer muito do “destino”, porque ele só me parece perfeitamente traçado, no sentido de fazer algum sentido, a posteriori, jamais a priori. Isso significa que, sim, eu consigo acreditar num “destino”, mas apenas como organização nossa, como construção nossa, não como um dado intrínseco à vida humana ou à biologia humana. A vida, em si mesma, com todos esses átomos e componentes químicos tamborilando de lá para cá, ainda não me parece fazer sentido algum. É a minha mente que confere sentido a tudo e que, provavelmente, traça destinos, cria deuses e fantasias para que tudo seja confortável (de fato, seria insuportável viver num mundo em que as coisas não fazem sentido).

Assim como você (mas com uma ligeira diferença), sou declaradamente de todas as construções mentais humanas, estejam elas no terreno da fantasia ou não. Não posso esperar encontrar um bruxinho como o Harry Potter por aí, mas admiro a fantasia envolvida. Ela nos diz sobre tanta coisa e, por isso, revela muito de nossas intenções, de nossas fragilidades, nossos medos, enfim, temas humanos, todos eles reais, dissolvidos em fantasia (fantasia que, a depender do momento, pode se tornar tão real quanto essa xícara de chá que está na minha frente). Tudo isso num simples Harry Potter? Sim, mas também na “Bela Adormecida”, no “Homem Bicentenário”, nas religiões, nas novelas, enfim. Parece que nosso sistema cognitivo é tão complexo que o real torna-se limitante, precisamos mesmo abrir as fronteiras para colocar à mesa tudo de que somos capazes.

É como se vivêssemos a dualidade representada no filme Matrix. Ou seja, dentro dela as possibilidades são virtualmente infinitas. Mas há sempre reflexos fora dela, reais, bem reais, que estão atrelados ao que se passa dentro da Matrix.

Quando você diz que sua realidade não precisa necessariamente estar em relação com os dados objetivos, e que – de certa forma – o que ocorre em sua mente já é um tipo de realidade para você, pergunto: como são possíveis instâncias éticas, políticas dignas, a partir dessa base conceitual? Como é possível um Direito nessa linha de raciocínio? Como fruir o sabor sem alguma presença do saber?

São questões que ficam.

Parece-me claro, no entanto, que a temática não se dissolve assim, fácil. Por exemplo, em epistemologia, fala-se com certa frequência da construção da objetividade.

O que isso diz para você?

Beijos,
G.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Real: um delírio?

Querido amigo,

Bom conversar com um cético. Na verdade, é sempre bom conversar com você, mas especialmente bom por ser cético. Acho que é mentira esse negócio de você não acreditar em destino, rs. Você acredita mesmo, completamente, em seu ceticismo? Concordo contigo sobre a falta de controle nossa e talvez da vida sobre a nossa vida. É que uma complexidade tão bela como a vida ser jogada, assim, ao acaso das consciências, parece um desperdício, às vezes. A você não parece?

Bom, quanto a mim, sou declaradamente crente em todas as coisas do universo que são e não são nomeadas (Papai Noel, pai de santo, Deus, espíritos e santos de toda a ordem, gnomos, destino, astrologia, carma, energia, arrepios...). Gosto do mundo limiar, das fronteiras, daquilo que pode ser sentido, mas não tocado; intuído, mas não comprovado... Adoro o status do quase, do talvez, do poderia ser. E acho mesmo que fantasia é um tipo de realidade, das mais profundas e ricas. Realidade, para mim, não significa correspondência com dados objetivos. Algo que eu penso já é realidade em alguma instância dentro de mim.

Sei que Kant deve estar rindo de mim nesse momento. Pensar e conhecer são processos diferentes para o filósofo, um defensor da verdade de correspondência entre os fatos e pensamentos. Com toda minha reverência honesta ao ilustre pensador, permito a mim mesma considerar desnecessária qualquer correspondência dos pensamentos com dados objetivos para atingir a verdade ou a realidade. O que é real dentro de mim é real para mim, e isso, me basta.

Um beijo da amiga Clarissa

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Navegando, sendo navegado ou o quê?

Cla, Cla, Cla...

Não sei se a vida é mesmo tão condutora como, às vezes, tendemos a pensar. Acho apenas que temos de nos conformar com a maior parte das coisas que nos acontece e sobre a qual não temos o menor controle. E adaptar. Porque, no mais das vezes, esse nosso discurso não passa de autoconsolo, no sentido de que precisamos encontrar (e fabricar) algum sentido nas conchinhas que o mar da vida nos traz a cada nova onda.

Não sei, Clarissa! Acho o ser humano fantasticamente mentiroso. E, quando digo mentiroso, digo-o para indicar um sentido positivo do termo, sem o qual – provavelmente – não suportaríamos um dia sequer. Aquela coisa necessária de acreditar em destino, sabe?! De crer cegamente que há algum propósito em cada coisa que fazemos ou que nos acontece...

Enfim. Você tocou num ponto fundamental. A mudança. O trânsito. A passagem. De um estado a outro. Cortando elos. Estabelecendo novos.

Diga-me: será que há mesmo algum propósito nisso tudo?

Sou cético, você me conhece, embora me considere “aberto” para muitas possibilidades. É que eu não sei. Não sei mesmo!

Beijão!
G.

sábado, 10 de novembro de 2012

Ventos e quadris

Gus, Gus, Gus...

Acho que esse orgulho todo pode fazer com que, sem perceber, a gente acabe diferenciando as pessoas em termos de saber... Eu prefiro ficar atenta às vaidades desta ordem, mas não é exatamente um conselho para você, é mais um alerta para mim, de fato.

Bom, como você sabe, comecei a trabalhar como psicóloga na Universidade Federal do ABC. Sabe, eu tinha muito medo de me ver como pertencente a algum mundo que não o universitário, que é onde minha alma se derrama. E, veja bem, pertencente durante 40 horas semanais! Mas você deve estar se perguntando, "ué, mas ela não está trabalhando dentro de uma universidade?" Pois é, meu amigo, mas estou do lado de lá (ou de cá?). Eu atendo os alunos e professores, o lugar é completamente outro.

Claro que isso tem a ver com o papo de cima, de orgulho de pertencer ao grupo dos inconformados... Eu tinha (tenho ainda) um medo honesto de perder minha identidade. Que coisa maluca, não? A identidade da gente não deveria poder ser perdida. Mesmo quando estamos diferentes, tudo deveria fazer parte de um processo de identificação dentro de uma grande e mais definitiva identidade, que é a do ser Clarissa. Mas a verdade é que cada grande mudança que corta significativos cordões umbilicais é sentida como uma perda de identidade por mim. Como se um pedaço da minha história fosse arrancado e outro precisasse de lugar, meio de sopetão, tentando caber no vão das poltronas que já estariam ocupadas, chegando com quadris bem largos e espaçosos.

 Pois é... sinto que os ventos são outros. Devo fazer uma reverência à força de condução da vida. Ela tem me dobrado...

Um beijo especial para ti da amiga Clarissa




domingo, 4 de novembro de 2012

Inconformado e orgulhoso! Mas e daí?

Pois é, Clarissa! Fui desmascarado! Tenho não apenas orgulho dessa inquietude que me é peculiar como, fazendo um exercício mental agora, acabo de perceber também que em minha lista de “heróis” não consta nenhum nome que não tenha essas características. Ao que tudo indica, eu seria um péssimo terapeuta, porque acredito que a dor e o sofrimento de ser assim é preferível à alegria e ao contentamento, por vezes ingênuo, que caracteriza o outro lado. Costumo até brincar que tenho medo de gente muito feliz. Porque, quando me vejo diante dessas pessoas, não sei bem discernir se estou diante de um “santo” que conseguiu superar a tristeza em virtude de alguma evolução espiritual; ou se estou cara a cara com alguém que simplesmente não percebe as sutilezas da vida.

O “olhe ao redor, estranho, não?” me diz isso. É o “grito silencioso” de alguém que percebeu o óbvio: tem coisa estranha nisso aqui! Se dá trabalho ser assim? Não tenha dúvidas. Mas eu não trocaria essa loucura consciente por qualquer forma de contentamento inconsciente. Não sou daqueles que pregam que, na vida, o importante é ser feliz. E muito menos daqueles que acreditam que a “evolução” em nosso caminho se dá por aceitação.

Enfim, Clarissa! Há tanta coisa para pontuar. Mas deixo estar.

Em minha lápide, pode ter certeza que estará escrito assim: aqui jaz um inconformado!

No fundo, não deixa de ser um preceito budista: viver é sofrer!

Beijão,
G.  

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Náufraga à vista

Querido amigo,

Vou evitar me desculpar por ausências e essas coisas. Acho que tenho me escondido de mim mesma. Como eu já comentei em outro momento com você, não tenho talento para escolhas, mas tampouco me vejo com talento para viver o dia a dia como ele se apresenta. Minha alma gosta do movimento, ela até acha que prefere as mudanças à estabilidade, mas quando a desordem das novidades surge, um recolhimento com cara de caos se instala sem avisar. Ou talvez até avise, dando uns sinais de que algo vai ser diferente. Na verdade, eu não sei dizer "não" para a vida. Ela me desafia e eu respondo positivamente. Ela me convida e eu vou como quem não tem outro caminho. Parece até uma falta de escolha...

Eu queria voltar a falar sobre as almas enfermas, aquelas que precisam "nascer duas vezes" para aprender a se adaptar e ver o mundo com certa leveza e aceitação. Não sei se me enganei, mas senti um certo orgulho embutido em sua fala ao se assumir como pertencente a esse grupo. Senti que você admira a inquietude, a criatividade, o jeito inconformado que acaba fazendo história. De minha parte, essa condição me traz mais angústia e desadaptação que admiração. Claro que tem uma parte de minha alma que sente essa pitada de orgulho, mas com o passar dos anos, com a convivência com algumas pessoas, fui entendendo que não é nada assim tão especial, é só um tipo de estrutura psicológica, com seus desafios próprios. Não é para se reclamar, claro, só pensamentos, meu caro, pensamentos.

Estou a ler Charles Taylor, Uma era secular, e o que posso dizer é que ficamos mais complexos a cada dia. Está mais difícil definir os seres e a sociedade. Isso ou aquilo não diz quase nada da gente. Precisamos de "muitos issos e aquilos também". Sei lá, acho que acordei com medo da imensidão da vida. Me ajude, amigo.

Um beijo com carinho da Clarissa.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Olhe ao redor! Estranho, não?!

Minha querida amiga,

Andei ocupado demais comigo mesmo esses dias e, curiosamente, achei isso terrível. Na verdade, essa coisa toda tem a ver com o que você trouxe à tona. Alguns têm uma facilidade incrível para viver neste mundo. Outros, grupo em que me incluo, têm alguns problemas. Algumas dificuldades estruturais.

Curioso. Isso me lembra uma pichação que vi há muitos anos no muro do cemitério do Araçá. Passando por ali de carro, e em meio a um trânsito caótico, ambulâncias gritando, mendigos deitados nas calçadas e gente cansada voltando do trabalho, o comentário numa das paredes me chamou a atenção. Dizia apenas isso: olhe ao redor!! Estranho, não?! E era poético. Era crítico. Deu-me a certeza, no momento em que li aquilo, que a pessoa que havia pichado tinha uma alma como a minha. Inconformada por natureza, com dificuldades peculiares para se adaptar a um mundo estranho (com aparência de normal), enfim, uma alma reflexiva.

Para esse tipo de alma, as conveniências sociais podem até, de vez em quando, ser toleradas e obedecidas. Mas não se engane: de tempos em tempos, há um grito que sai lá de dentro. Um surto. Uma irracionalidade imediata. E é daí que saem as boas poesias, as grandes artes, as músicas inesquecíveis, os pensamentos irrefreáveis.

No fundo, creio que o mundo precisa dos dois tipos de pessoas, sem dúvida alguma. Mas isso não se escolhe (pertencer a este ou àquele grupo). Só se aceita, com todas as dificuldades de comunicação que essa heterogeneidade nos traz às vezes.

Ai, querida Clarissa, há tanta coisa entre o céu e a terra que, realmente, nos sentimos perdidos na maior parte do tempo. Não sei se o James tem razão. E nem sei se eu mesmo tenho alguma. Escrevo o que sinto, o que observo, o que me chama a atenção e, inquestionavelmente, o que me muda – de dentro para fora e de fora para dentro.

Não sei que rumos nossa conversa tomará daqui para frente. Mas vou aguardar. Tem sido muito proveitoso dialogar com uma alma inquieta e excitante como a sua.

Beijos,
G.    

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Nascidos duas vezes

Meu amigo,

Estive viajando e retornei apenas ontem à noite.  Lendo sua carta, lembrei-me que em alguma ocasião você chegou a dividir as pessoas em dois tipos, sendo um deles mais adaptado às regras da sociedade e outros menos encaixados nesses modelos todos. Os segundos, naturalmente, apresentariam conflitos  de ordem provavelmente mais angustiante que os primeiros.

Sempre penso em meu marido nessas ocasiões. Ele não faz esforço para viver de acordo com o mundo. Ele e o mundo simplesmente se entendem; vêm da mesma origem, ambos compartilham os mesmos valores. Não é superficial (pelo contrário, aliás, é bastante inteligente, perspicaz, afetivamente presente), tampouco é fake, um qualquer que representa bem seu papel para não ter punições posteriores, ou simplesmente para obter o que quer. Não. Ele vive, respira e acredita na história dele. É simplesmente feliz.

Soa até estranho para nós, inconformados (desastrosamente, já estou incluindo você, Gustavo, nesse grupo, sem ao menos consultá-lo. Se não for o caso, desculpe minha pressa). Os que não se conformam são os que não se adequam à forma e passam a vida procurando seu lugar. Talvez seu único lugar possível seja dentro de si mesmos, de sua inabilidade originalíssima, de sua alma "genial" incompreendida e inútil. De que vale falar esperanto em terra em que só se entende inglês?

William James também dividiu os seres humanos em dois tipos: "os nascidos uma vez" e os "nascidos duas vezes". Você se lembra disso? James referia-se a essa segunda categoria como almas enfermas, naturalmente doentes. Seria preciso um novo nascimento para a possibilidade de uma visão feliz, integradora...

Não sei se errei em algum sentido conceitual (faz tempo que li William James), mas minha memória me trouxe até essas reflexões quando falamos de escolha. Não somos livres para escolher, somos condicionados pelas contingências de nossa personalidade, pelas aflições de nossa alma, de nossa história, pelas variáveis que se apresentam. Ainda assim, temos escolha. Em nosso limitado leque de possibilidades. E no final, é preciso ainda agradecer por esse limitado leque, evitando que ele se torne ainda mais limitado. Viver...

Um beijo, querido. Até a próxima estação...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

E se Deus não existe...

Querida Clarissa,

Não sei, de fato, por que o processo de escolha é tão desgastante, complexo e paradoxal em nossas vidas. Aliás, estou escrevendo um pequeno livro de registros pessoais em que o pano de fundo é exatamente este: a liberdade de escolha.

A meu ver, vivemos o dilema registrado na fala memorável de um dos personagens de Dostoievski: se Deus não existe, então tudo é permitido. Essa paráfrase do livro “Os Irmãos Karamazov” tem sido frequentemente mal interpretada durante o século XX, sobretudo por religiosos que buscam em Dostoievski (bem em quem) uma suposta defesa da moralidade a partir de princípios religiosos. Na verdade, o escritor russo não queria enfatizar a possibilidade de amoralidade se extinguirmos o conceito de deus; mas, antes, sublinhar – como fica claro na leitura do trecho todo – que, se abdicarmos da noção de deus, então recai sobre nossos ombros (e somente sobre eles) toda e qualquer responsabilidade diante das escolhas e dos atos que fazemos. E isso não só parece aterrador do ponto de vista prático como, também, nos deixa com um controle sombrio da vida que, provavelmente, não fazemos questão de saber que temos.

Por isso, sua fala é apenas mais um registro desse paradoxo: lutamos muito para ter o controle das coisas, mas, quando finalmente ele está em nossas mãos, fazemos questão de passar a bola para outro (ou lamentamos que tenhamos tantas alternativas). E veja: é uma preocupação legítima, já que Sartre andou por aí quando afirmou que “o homem está condenado a ser livre”. E Nietzsche ficou louco ao propor que a ideia de um deus que justifique os acontecimentos à nossa volta é totalmente desnecessária (naturalmente, dizer que sua loucura pode ser explicada a partir dessa base é mera suposição minha).

O fato é que dá medo mesmo. Tomar decisões. E não sem razão. A vida é um quebra-cabeça complicado demais para seres tão (i)limitados.

Humano, demasiado humano...


Beijos,
G.  

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Riquezas humanas

Querido amigo,

Peço desculpas pela demora em respondê-lo. Estou diante de uma escolha e sempre decisões me custam considerável energia. O fato de ser uma escolha do âmbito profissional alivia um bocado de tensão, mas não a evita. Acho que estou aqui já abrindo um novo tópico, mas não sem antes finalizar aquele.

Gustavo, eu, como você, acredito em educação, em gentileza, em valores humanitários. Não sou durona na hora da verdade, derreto ao ver bondade, delicadeza, arrependimento, nem que seja por um segundo, no olhar de outra pessoa. Sou inspirada pelos segundos de beleza que nossas almas nos permitem contemplar delas. Acredito fielmente que somos maiores e melhores do que imaginamos e do que apresentamos. Acredito verdadeiramente que no final sempre fica tudo bem, mesmo quando fica mal. As piores dores (conheço bem de perto uma delas, que é a loucura, o desfacelamento do eu, o eu engolido pela doença da mente), entendo-as como parte importante de um aprendizado maior, o da consciência (ou como alguns preferem, do espírito). É, eu sou uma ingênua, meio banana. Crio meus filho com essa bananice que não pode ser escondida em mim.

O fato é que acreditar e honrar tudo isso não nos faz ignorar o que está por baixo. Os mecanismos de sobrevivência nos expõem aos vícios, às vinganças, à violência, à miséria, ao desamor. A despeito de toda essa dor, aqueles segundos que descrevi acima e que você também sabiamente trouxe em sua última carta, são capazes de salvar o dia, o relacionamento, a vida, a consciência. A nossa humanidade é bela e trágica ao mesmo tempo, mas acredito muito na força do belo que sempre começa de novo.

Dentre as agruras da sobrevivência, está - como eu dei a entender no começo - a escolha, ou a tomada de decisão. Por que, G., parece-nos tão angustiante este processo? Porque ficamos o tempo todo a blasfemar contra a vida, Deus ou seja lá o que for, reivindicando que o poder esteja em nossas mãos, e justamente quando ele vem para elas, é que suamos, preferindo que a escolha já tivesse vindo pronta?

Bom, outro dilema complexo. Fico na expectativa de sua resposta, certamente rica.

Um beijo para ti da Clarissa.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sim, mas fica um gosto amargo!

Amiga Clarissa,

Confesso que refleti bastante nessa longa conversa.

Minha definição de “cabrão” é aquela do nordeste brasileiro; corno manso mesmo; chifrudo. Curiosamente, fui até o Aulete e me surpreendi ao ver que esse termo consta (e com mesmo significado). Não imaginava! Mas, enfim. Esse é um tipo de homem muito raro e bem diferente do “machão”, do “garanhão” e dos coronéis “Jesuínos” que temos por aí.

Bem, resta dizer que estamos de acordo em quase tudo. Exceto por um gosto amargo que ainda fica na minha boca ao ver toda essa abordagem funcionando “quase” como um sistema “pai-e-filho”. No sentido de ações e punições, ações e reações, etc. Isso tudo é ainda muito newtowniano e cartesiano para minha cabeça. Não consigo louvar um projeto evolutivo (divino, menos ainda) que tenha estabelecido a dor como principal etapa de conhecimento. Posso, claro, reconhecer que isso é assim e funciona assim, mas não achar que se trata de um projeto elegante.

Naturalmente, meu desacordo se dá porque visualizo uma alternativa. Chama-se autocrítica, autoconhecimento, autorreflexão...  e ela pode, sim, ocorrer sem a intervenção das punições e, portanto, das vinganças de outros.

Passei por várias dessas situações há uns 10 anos, quando ainda lecionava em colégios. O diretor mandava punir o aluno por causa de um comportamento ou uma ação particular. E aí, conversando com o aluno depois, percebia-se que a autorreflexão já havia acontecido, no sentido de um arrependimento legítimo e educativo, que – a meu ver – dispensava totalmente a necessidade de outras intervenções.

Mas a punição fazia parte do estatuto da escola. E outra: não executá-la, abriria um precedente (em ambientes públicos, sobretudo em escolas, sempre tem esse papo dos precedentes – não sei por que não se perguntam sobre os “poscedentes”, já que o que realmente importa é o que será feito daquele momento em diante).

E aí se punia o aluno, desnecessariamente, apenas para seguir a “letra” e, claro, saciar um pouco o fetiche por dor da grande maioria dos espectadores.

Não sei, Clarissa! Mas acho que somos um pouco sanguinários por natureza. Gostamos, inconscientemente, de assistir ao sofrimento alheio (verdade mesmo! Repare!). E isso, como mencionei acima, é tudo menos elegante para mim.

Enfim. Quem sou eu? Apenas ouso...

Para terminar no direito, fecho com essa citação: quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis.

Que tal substituirmos nessa citação “leis” por “punições e vinganças”?

Um beijo,
G.   

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Emoção como forma de conhecimento

Querido Gustavo,

Como encontrar a dose correta, se o que dói em um não é o mesmo que dói no outro? Movida por essa sua questão é que me lanço a uma resposta simples a ponto de ser quase óbvia: são as emoções que nos dizem sobre o outro, sobre o que dói, o que aniquila, o que estimula, o que provoca. Desde crianças, testamos as reações emocionais das outras pessoas a partir de códigos sutis de comportamento e linguagem. Tudo para chegar a um ponto importante: o conhecimento. Sentir é uma forma de conhecimento de si e do mundo, especialmente entre pessoas com uma conexão emocional profunda, como é o caso de parceiros amorosos.

A moeda de troca quase nunca é pagar a traição com uma traição. Existem sutilezas nessa troca, para que ela funcione. Às vezes, dói muito mais no outro (no "cabrão", talvez, mas confesso que me surpreendi com sua definição, pois achava que na definição de "cabrão" caberia muito mais um cabra machão que jamais admitiria ser traído), dói muito mais uma provocação intencional de olhares do que uma realização de fato. Ou dói ser olhada por uma pessoa específica (talvez o amigo de infância do cabrão) e é esse olhar que "ela" deve perseguir.

Perseguir - veja bem - não realizar. Quando o vingador se iguala em termos de intensidade da traição, esta já recai para um nível não saudável. A vingança precisa ser um grau abaixo da provocação inicial, mas um grau que também provoque dor. E ao contrário da intensidade, a frequência precisa ser da mesma ordem. Por exemplo, a mulher traída pode sentir que o que dói para o cara é o prestígio social e nesse caso ela denuncia o cabra publicamente por maracutaias. Funciona? Depende do que se quer. Se ela só queria acertar as contas com sua própria alma, ok, pode funcionar. Mas se ela ainda queria ter algo com o amado... Não vai ser possível (ou quase nunca). Uma pessoa ferida só pode manter os canais de troca com a que a feriu se uma reconstituição emocional acontece. E existe um nível de reconstituição que é individual e outro que é do relacionamento. Não adianta o vingador (vamos falar um pouco do cara traído, só a mulher traída não vale, rs) queimar o rosto da traidora. Ele pode até se sentir reconstituído em termos de brio, entretanto, a relação foi ferida num nível ainda mais grave que o da traição, e pelo fato da frequência da vingança não ter sido a mesma do ato vingado (traição afetiva X violência física), a conta nunca vai fechar, pois novas feridas foram abertas. O relacionamento não foi reconstituído, apenas - talvez - a emoção do sujeito.

Acredito que a vingança é uma forma de fazer o outro reconhecer "minha" dor. É tornar legítimo um sentimento que só é enxergado por mim. É, além de um mecanismo de defesa, também um mecanismo de identificação, no sentido de reconhecimento.

E quando você se refere a olhar para dentro, sim, Gustavo, exatamente isso! Eis a chave de compreensão das doses e limites emocionais de si e do outro. Ao olhar para dentro, identificamos nossos reais desejos e medos e desenvolvemos intuição, sensibilidade, faro emocional para olhar para as sutilezas da alma do outro. E é assim que saberemos onde dói.

Sobre a educação emocional (talvez eu esteja puxando sardinha para meu lado), acredito que ela se dá terapeuticamente, mas também por outras vias que não as terapias tradicionais, como viagens, erros e acertos amorosos, estudos... Todas as formas de conhecimento do mundo são formas de conhecimento sobre nós e contribuem para enriquecer nosso saber emocional.

Vou terminando, meu filho está quase por acordar aqui ao lado (ainda são 3h30 da manhã). De minha parte, essa pauta da vingança foi esmiuçada, por ora. Veja se também lhe basta de vingança, rs.

Beijo da Clarissa.

Sair da gaiola, ir além e o que mais?

Prezada Clarissa,

Primeiro um comentário: não se desculpe pela falta de referências! Os nomes não significam nem mais nem menos conhecimento. E diria até que, quando você escreve, o mais importante é o seu nome, Clarissa, sua identidade, aparecendo tão sutilmente por trás de cada linha. Seu texto é belo, porque é a sua cara. Para que outros nomes e outras caras, se – em sua maioria – acadêmicos são feios e barrigudos? Estragaria...

Brincadeiras à parte, é isso o que noto. Seu argumento em prol da vingança é muitíssimo particular, me parece. Quando o leio, fico tentado a discordar. Mas percebo que você tem seus pontos e tem seus meios, de modo que – sim – você deve ter razão (ou alguma razão) no que fala (isso, aliás, é totalmente insignificante, já que essas cartas não são uma competição de argumentos, para ver quem vence e quem perde). O que parece curioso, porém, é sua definição de vingança sadia. E faço-lhe uma pergunta: como encontrar a dose correta, para atos distintos, se as pessoas são diferentes e, em geral, o que dói em um não dói no outro?

Eu me explico. Traição, por exemplo. Num dia qualquer, sol, cerveja, papo-vai, papo-vem, uma oportunidade aparece e o homem não resiste e trai sua parceira. Bem, a parceira descobre, seja pela cara de cachorro órfão dele ao chegar em casa ou por terceiros, e –claro – decide se vingar. Vai e faz o mesmo (engraçado, acabo de pensar que o que move a maioria dos homens à traição é o tesão, enquanto que – no caso da mulher – é o desejo de vingança, de fazer igual. Freud está por aí?).

Bem, voltando: não tenho dúvidas de que a traição no homem dói tanto quanto na mulher (embora com sentimentos diferentes, naturalmente). Mas suponhamos que se trata de um “cabrão”. Explico minha definição: “cabrão” é o homem que não tem nenhum problema com ser traído; aliás, às vezes ele até gosta. Nesse caso, pagar a traição com a traição não resolve. Pois são pesos iguais, mas medidas diferentes!

O que quero dizer é: como estabelecer isso? Como enxergar onde estão esses limites, sem ficar aquém do ato feito e sem excedê-lo em suas dimensões psicológicas?

Complicado, não?!

Por isso, falar em educação, sobretudo em educação emocional, é tão difícil. Está na moda, é verdade. Qualquer livraria tem algum título na lista dos mais vendidos com coisas do tipo “inteligência emocional” em letras graúdas. Mas isso não quer dizer nada, pois continuamos cegos para as questões interiores, tratando-as como objetos extracorpóreos que podem ser medidos, racionalizados, teorizados, etc. Não podem!

A meu ver, Clarissa, minha amiga, para chegarmos – de fato – a uma educação que supere essas antinomias, e inclua – por exemplo – a vingança na pauta do dia (não como fazem alguns psicólogos, mecanicamente), é preciso transcender nosso velho método cartesiano. É preciso ir além, dando vazão ao ser e aceitando os perigos de, momentaneamente, perder o controle e sair da gaiola. Mas sinceramente: não sei se isso pode ser ensinado!

Então entramos no limbo, entende?! O que fazer?

Bom, paro por aqui... por enquanto.

Beijo!
G.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Defesa de ego e educação emocional

Gustavo, meu amigo,

Ao contrário do que você expôs logo no ínicio de sua carta, a vingança nunca chega de repente; ela é sorrateira, silenciosa, gosta das laterais, e está sempre à espreita. Não é à toa que quando eu propus no primeiro texto do blog o tema do equilíbrio, eu já tinha a vingança em algum cantinho de minha mente bem intencionada.

Você me pede uma análise psicológica da vingança e lá vou eu, solitariamente, sem recorrer a nenhum grande nome nesse parágrafo, para dizer o que vem de minha alma. A vingança é um recurso egóico de defesa que quando utilizado em um nível saudável (dose de antídoto, não de veneno) pode proteger o ego contra a posição depressiva, que é por demais violenta e destrutiva ao ser. A tristeza profunda experimentada em uma depressão devasta a psique, desarticula a identidade e desestrutura o ser. Por isso, a vingança é um mecanismo de defesa a serviço da evitação desse estado, já que dentre os estágios da dor temos a raiva e a tristeza, e ambas podem se transformar em mágoa ou ressentimento - estes últimos, poderosos sentimentos destrutivos em busca de justiça emocional, o tal do reequilibrio. A vingança é um agente psicológico do reequilibrio. O problema é, mais uma vez, a dose. Uma vingança que realiza uma carga destrutiva tão ou mais violenta que a carga da qual se vinga, é uma vingança patológica. A título de exemplo: matar alguém que lhe traiu é patológico, não traz reequilíbrio, e sim mais desequilíbrio, mais raiva, mais dor, mais ressentimento. Não gera aprendizado para a outra parte, não faz igualar as situações através do reconhecimento da potência destrutiva inicial. Não promove compaixão, não promove integração. Esse tipo de vingança vai para os jornais, para as clínicas psiquiátricas, para os funerais. Veja, portanto, G., que há uma vingança saudável - a serviço do reequilibrio do organismo, do ego, das relações interpessoais - e há uma vingança patológica - a serviço de mais destruição e desintegração.

Como diria Damásio (optei por chamar alguém para me ajudar nessas loucas empreitadas), as emoções antecedem a razão nas tomadas de decisão. Somos seres passionais, sim. Instintivos, reativos. Portanto, não são os códigos morais que nos impedem de cometer uma ação cruel (pelo menos nem sempre são eles). Para mim, são nossas próprias emoções que agem evitando a catástrofe e não somente provocando-a. Temos emoções nobres e dentre elas, a intuição que vislumbra o que será melhor em termos de proteção. A mente joga xadrez, mas diante do aperto do cronômetro, a melhor jogada pode surgir como um desenho aparentemente ilógico, quase como um ingênuo "liga-pontos".

Não sei se me estendi em minha análise. Passo a bola para você, sugerindo, humildemente, que insira a Educação nesse debate. Já que as emoções mandam no jogo, será que poderíamos ser melhor educados emocionalmente para sabermos nos vingar na medida certa ou escolher com vistas na construção?

Beijos da Clarissa.

Olho por olho...

Querida Clarissa,

Interessante a vingança ter aparecido por aqui de repente. Sempre tive curiosidade sobre o tema, sobretudo porque a maior parte das novelas, dos filmes e das histórias (reais ou não) que nos chamam a atenção tem alguma coisa a ver com vingança. Como não lembrar, por exemplo, do magnífico Ben-Hur e de sua cruzada durante todo o filme contra o ex-amigo Messala? Como não vibrar com “O conde de Monte Cristo” e sua incrível estratégia vingativa contra, novamente, um ex-amigo de infância que lhe roubara a vida e a mulher? (vingança e traição, aliás, tem atratividade por natureza, não acha?)

No fundo, tudo o que envolve vingar, passar a limpo, descontar, enfim, nos interessa. Porque parece que uma parte de nós está sempre frágil e exposta. Parece que, em algumas áreas, estamos sempre precisando que alguém nos defenda e nos livre das “injustiças” que ocorrem durante a vida (e vamos combinar que o termo “injustiça”, geralmente, é bem mais subjetivo que objetivo).

O curioso é que, no caso das religiões, não é muito diferente. Embora, numa primeira análise, a vingança seja evitada para dar lugar ao perdão (oferecer a outra face), na prática mesmo – e traçando um histórico dos grandes sistemas religiosos – percebe-se que todos nascem de um ímpeto vingativo, de uma insurreição contra princípios e valores de sociedades inteiras (e reconheçamos: se tomarmos, por exemplo, o judaísmo e o cristianismo por base, pode-se visualizar uma porção de narrativas estruturais que tem relação direta com o tema da vingança).

Talvez você seja capaz de fazer uma análise mais psicológica da vingança. Mas, a meu ver, parece claro que operamos por sistema de equivalência: ou seja, se você pisa o meu pé, não sossego enquanto não puxo o seu cabelo. E assim por diante.

Se isso, de certa forma, reequilibra os papéis? Não sei, tenho dúvidas.

Parece claro, no entanto, que – socialmente (e de modo institucionalizado) – as leis e os interditos constitucionais desempenham esse duplo papel. Ao que tudo indica, vivemos ainda num tempo de “olho por olho, dente por dente”.

Beijos não vingativos para você...
G.   

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Antídoto e veneno

Obrigada por sua carta, aprendi bastante. Peço que você sempre enriqueça nossas trocas com esses "autores pensantes", pois eu sou mais dada às reflexões livres. Mas como fazem falta essas referências! Obrigada novamente. Já vou logo ler sobre Stark.

Acho que a moral pode até nascer de um instinto de evitação da dor, mas na prática também gera dor. E esse é um dos problemas humanos relativos ao equilíbrio e desequilíbrio: dificilmente nós conseguimos dar conta de nossas dores emocionais, encerrando processos de mágoas, ressentimentos, raivas e tristezas sem um revide. Quando relegamos ao Estado ou às normas sociais a chance de reparar nossos danos privados através de leis e cumprimento destas, nós estamos exigindo uma vingança com cara de justiça.

Agora chego ao ponto que gostaria de ter abordado logo no começo de nossa correspondência: a vingança. Ela pode até parecer um recurso grosseiro, animalesco e pouco elaborado, que provoca repúdio aos humanistas, mas na verdade é uma parceira do equilíbrio na medida em que é um santo remédio para quase todas as dores. É claro que não adianta provocar exatamente o mesmo nível de estrago que o algoz gerou, mas é preciso alguma tentativa de reequilibrio do jogo, através da liberação mágica gerada pela possibilidade de inversão dos papéis.

O problema quase sempre é saber qual a exata dose do antídoto que cura sem matar, já que as substâncias do remédio e do veneno são as mesmas. As guerras eternas no Oriente Médio, por exemplo, são um exemplo obscuro de processos em que a vingança só gera mais sede de vingança, pois erros históricos nas doses já não permitem mais tréguas.

Caro amigo Gustavo, em relação à moral, ela se vinga por nós, chamando de vagabunda aquela que gostaríamos de intimamente nomear de algum nome do inferno, algum nome que contenha a força da raiva e da dor de uma traição. A moral traz de bandeja esses nomes raivosos, justificando nossa extrema falta de habilidade em lidar com a dor.

Despeço-me com um gosto um pouco amargo, retomando meu lugar nessa cadeia sem fim de emoções pesadas. Espero saber usar com equilíbrio minhas vinganças. Pois elas são, em algum grau, indispensáveis, em minha opinião.

Cla

Ah, a moral..

Então, minha querida...


Você pode discordar sempre que quiser. Todavia, o que quis ressaltar é que, embora a vida dos animais em geral esteja longe de ser um mar de rosas, há algo mais linear e, talvez, mais “conformado” no modo como vivem. Como dizem os biólogos, o sistema natural é um sistema que busca constantemente o equilíbrio.

Mas, deixando vacas e touros para lá, talvez nosso modo de vida seja mesmo diferente em virtude das inúmeras variáveis que, como você observou bem, fazem parte dos processos de nosso córtex. Uma delas é a vontade (prometo que falo dela em outra carta). A outra é a que você já mencionou: a moral.

É curioso quando fazemos uma genealogia da moral.

Egípcios e Sumérios, por exemplo (e imagino que todo o povo da Antiguidade, até os romanos), não distinguiam a moral do direito (e da religião). Era uma coisa só! O direito, na verdade, cuidava da jurisdição dessa moral. A religião, por outro lado, criava formas de coerção em nome dessa moral. Com o passar do tempo, e sobretudo atualmente, ficamos mais habituados a estabelecer boas diferenças. As leis do direito (principalmente no Brasil) são aquelas que podem ser “emendadas”, são rasuráveis, coercíveis. Ou seja, no direito, é perfeitamente possível que um assassinato seja absolvido e o roubo de umas galinhas seja condenado. No âmbito da moral, no entanto, isso é impensável, já que a moral seria um campo mais amplo que diria respeito à consciência do bem agir e do bem querer.

Claro que – não sem razão – esse é um daqueles temas controversos. Nosso amigo que gostava de empiria, David Hume, ao observar – na prática – a moral, chegou a afirmar que ela tinha menos a ver com a razão que com as paixões. Segundo ele, o impulso básico para a moral era justamente a tentativa de privação da dor e a busca do prazer (algo próximo do que defenderam Rodney Stark e William Bainbridge no livro “Uma Teoria da Religião”). Kant, diferentemente, achava que não era bem assim. Para ele, só era possível uma moral a partir de uma base racional. Ou seja, a partir da razão.

Não sei. Tenho dúvidas. Essas coisas me deixam confuso!

Um ponto, porém, me parece claro. Você disse bem em sua carta a respeito dos limites e das referências que tentamos nos impor desde que o mundo é mundo. Será por isso que criamos tantas definições mirabolantes e tantas explicações variadas? Tantas religiões, artes, códigos, ciências, expectativas, padrões, rótulos?

Mais que isso: uma vez reconhecido o fato de que somos falhos e de que estamos quase sempre inclinados aos caprichos da alma, como seria possível uma moral objetiva que superasse esse fosso conceitual que percebemos entre teoria e prática?

Um beijo,
G.  

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Prisões e vôos da espécie humana

Peço licença para discordar de uma premissa apresentada em seu texto, a de que somos os únicos seres desequilibrados deste planeta. Gostei do parêntese que indica a possibilidade de sermos - talvez - os mais desequilibrados.

Ainda falando de darwinismo, parece-me que a vaca está longe de ser uma simples "pastadora" à mercê do ambiente. Como qualquer ser de qualquer espécie, ela precisa lutar por seu lugar no reino dos seres vivos ou "a vaca vai para o brejo", rs. (perdoe-me pela piadinha ridícula). Alguns animais parecem ter conseguido a fórmula da permanência de sua espécie por longos períodos históricos, entretanto, nunca se sabe se uma era do gelo ou um aquecimento global não alterarão tudo novamente. Entendo, meu querido, que as variáveis para alguns seres (como parece ser o caso da vaca, mas meu conhecimento de biologia é tão parco, que prefiro não opinar com veemência) são bem menores do que as variáveis humanas. E nesse ponto entra a velha racionalidade e os processos do córtex.

Uma introduçãozinha para chegar à sua pergunta: se somos condenados à liberdade, como queria Sartre. Sim, evidente que sim. Condenados à liberdade de sermos complexa e paradoxalmente multideterminados. O que liberta também aprisiona, pois enquadra e nos faz responder etica e moralmente quando as respostas de outras ordens por si só já seriam suficientemente complicadas.

Por que é mais errado matar, se sempre se matou em todo o reino animal, não apenas para comer, mas também por outros motivos menos nobres como disputa sexual e até (no caso de algumas aranhas fêmeas em relação aos machos com quem acasalam) mata-se curiosamente somente após obter exatamente o que se queria? Por que é errado trair se não se observa exclusividade sexual em muitas outras espécies?

A verdade é que a espécie humana fica incessantemente tentando dar a si própria referências sobre quem é. Ela não conhece seus limites, sua força, seus objetivos evolutivos. Em relação a muitos e muitos outros animais, penso por vezes (de maneira honesta) que estamos é muito atrás no processo de evolução, principalmente a emocional. Somos bebês testando se chorar é bom ou ruim, se afinal funciona fazer birra para se chegar onde quer.

Vou terminando por aqui, com foco na questão da moralidade, e certa de que fugi do tema que gostaria de propor no início dessa carta (postagem soa menos nobre, rs). Mas como confio em sua capacidade de fazer ganchos, permaneço até esse ponto, aguardando a próxima jogada.

Um beijo para ti da Clarissa.

Reféns de tudo isso?

Pois é, minha querida! Acho que você tem total razão ao dizer que a vida é uma guerra. Mas é uma guerra para quem? Para nosso corpo finito e, portanto, dependente dos recursos físicos e orgânicos que advêm da natureza (e das incertezas que chegam com o tempo)? Ou uma guerra instalada em nossa mente, a partir da qual tudo e todos podem virar aliados ou inimigos?

Ah, nesses momentos, sempre me vem à mente o estereótipo da “vaquinha no pasto”. É verdade que a vida na floresta está longe de ser tranquila. Há sempre algum perigo à espreita ou, pior ainda, alguém querendo comer você (e isso todos nós sabemos que é terrível, mesmo na cidade). O caso é que, para a vaca, parece simplesmente não ter a menor importância se a grama está verdinha ou não. Ela continua ali, pastando, como se nada ocorresse. É certo, também, que ela fica mais gordinha ou mais magrinha a depender desse ambiente natural (eventualmente, pode até morrer de fome). Isso, no entanto, não constitui um problema filosófico-prático que tire a vaquinha do sério. Ela talvez seja um ser mais equilibrado que nós. Aceita com mais naturalidade os desdobramentos da teoria do senhor Charles Darwin. E pronto.

Não sei se me faço entender, mas – a meu ver – somos os únicos desequilibrados deste planeta (ou, talvez, os mais desequilibrados). E, claro, acho mesmo que a Terra seria muito chata sem a gente aqui para bagunçar tudo.

Mas deixo você com uma pergunta: será que somos reféns dessa nossa liberdade?

Um beijo diretamente do pasto...
G.   

"Não pense que a cabeça aguenta se você parar"

Gustavo, querido, gostei do seu título, Desequilibrados por natureza (até fui em minha primeira postagem colocar um título, também). Só o fato de sermos naturalmente desequilibrados é que justificaria nossa eterna busca pelo equilíbrio, como um estado ideal. Entretanto, falar de natureza das coisas, ainda mais das coisas humanas, é sempre um problema. Tendemos ao equilíbrio ou ao desequilíbrio?

É aí que talvez possa entrar Darwin (o cabra sempre é chamado em problemas complexos, quis se meter com algo muito grandioso, agora não tem sossego espiritual, coitado). O equilíbrio é o queijinho do rato no final do labirinto, enquanto os caminhos competem entre si apresentando-se como mais convidativos, úteis, atraentes, eficazes... O desequilíbrio estimula a competitividade, que, claro, nos impulsiona a buscar soluções evolutivas criativas para se chegar à homeostase, à paz, ao equilíbrio do organismo. Pelo fato de ser um prêmio evolutivo, o equilíbrio é, sim, um estado passageiro, pois equilíbrio demais nos tornaria preguiçosos e perigosamente entregues à inércia que nos faria estacionar na evolução, sendo ultrapassados pela primeira tartaruga mais espertinha.

Só posso concluir, amigo Gustavo, que a vida é uma guerra e "não pense que a cabeça aguenta se você parar". 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Desequilibrados por Natureza

Ai Clarissa,

Sua provocação, de fato, funcionou. Tanto é que estou aqui, madrugada adentro, pensando nesta rara oportunidade de conversar com você diante dos olhos virtuais do mundo todo. Que prazer! E logo sobre equilíbrio, imagine!?

Bem, acho que estamos de acordo, pelo menos por enquanto. Não creio também em equilíbrio como condição humana. Assim como você, estou mais inclinado a pensar que o equilíbrio se dá muito raramente e, mesmo assim, sob circunstâncias muito específicas. Seria um oásis que, vez ou outra, aparece. Mas sempre uma exceção, não uma regra, embora – claro – o tema seja controverso.

Aliás, nem sei dizer se teríamos evoluído, como seres humanos e como sociedade, se nossa espécie tivesse sido equilibrada desde o princípio. É o que Piaget diz, por exemplo: desequilíbrio é fundamental! Fundamental não só para a quebra da rotina como, sobretudo, para o desenvolvimento cognitivo (que – me parece – só funciona a partir de situações desestabilizadoras).

Engraçado: não lhe parece curiosa essa relação entre desequilíbrio e evolução?

Bem, acho que teremos de trazer o Darwin para a conversa.

Um beijo evolutivo para você!
G.

Equilíbrio: um ponto g?

Primeira provocação: eu queria conversar sobre o equilíbrio. Fico a pensar que ele é uma invenção nossa, dentre muitas outras que complicam a vida. Parece que o estado de equilíbrio depende de uma combinação tão complexa de fatores em movimento constante que se por um segundo extasiante o equilíbrio se faz, ele logo teima em se desfazer no ar. Manter o equilíbrio é um estado de tensão permanente, uma alquimia entre partes que possuem outras necessidades além de estarem ali naquela busca equilibrista. Posso (sempre) estar enganada, mas não acredito em equilíbrio como uma condição, apenas como um estado muito sutil e breve. Ah, Gus, peço licença para fazer um bem bolado com as ideias daqui para outros canais meus, ok? Um beijo desequilibrado para você da Clarissa.